18.10.07

Sonho




Eu tinha fome, e com os trocados que estavam amarrotados em minha mão - bem apertados mesmo - não podia pegar qualquer coisa, precisava escolher de forma a comer mais pagando com aquelas ninharias. Dois pães médios embrulhados com dizeres que eu não entendia, língua desconhecida. Rasguei a fina embalagem do pão doce, e comi clandestinamente enquanto andava pela loja de quinquilharias - era uma loja bizarra, dessas das lembranças - lembranças sempre são beges, rotas, escurecidas; sobretudo beges - vendia-se tudo por ali: abajures, guarda-chuvas, discos velhos, sofás horríveis... Uma lojinha enfiada em algum lugar da Europa: país europeu, língua desconhecida, país desconhecido. E também havia os pães. Larguei o pão violado em algum canto perdido da minha inconsciência, devolvi a embalagem do pão salgado que não tinha aberto ainda; a embalagem ficou toda amassada. Peguei pequenas torradas que custavam trinta centavos (ou algo que equivalesse a centavos) daquela moeda estranha, daquele país estranho de língua desconhecida. Estas eu poderia pagar e me sobraria um pouco. Fiquei um pouco aliviada e comecei a vasculhar as quinquilharias que davam com as vitrines. Em grandes cestos havia uma papelada velha, revistas antigas, jornais, panfletos de época, fotografias. As fotografias eram antigas, como tudo por ali. Encontrei algumas bem pequenas, tamanho 3x4, estranhas, uma mulher anos 60 sorrindo um sorriso propaganda anos 60, ou 50, sei lá. E outras. Jesus na cruz, Nossa Senhora Aparecida. Esta na Europa, mas o sonho era brasileiro. E outras. Custavam o equivalente de dez centavos cada foto e isso me alegrara muito; eu poderia comprar um punhado de recordação daquilo que parecia um tour pela Europa. Nem escolhi, apanhei um tanto e fui pagar junto com minhas torradas de trinta centavos. No caixa, ou no que parecia ser o caixa, havia uma moça, jovem, minha idade talvez. Loira, européia, talvez. Rosto rosado, corpulenta, norueguesa - já sabia. No sonho, antes de vê-la já sabia que era norueguesa, mesmo sem nunca ter visto norueguês nenhum. Oi, falei para ser simpática; falei em alto e bom português. A moça havia me entendido, como só podia ser possível em sonhos. Travamos uma conversa rápida, disse que era do Brasil, o resto ficou perdido - ou encontrado num lugar oculto. Enquanto isso, a lojinha estava apinhando de gente, e também sabia a nacionalidade de todos os jovens dali. Um jovem magro, minha idade talvez, cheio de si, veio perto de mim; fiz propaganda das fotos 3x4, baratas, recordações desta velha Europa, em português, em alto e bom som, todos entenderam. O rapaz cheio de si, loiro, olhar irritante, pegou o monte da minha mão e o restante que ficara no cesto. Vou escolher, afaste-se, disse ele, ou disse algo parecido - ou não disse nada, mas fez-se entender assim, mudamente...Era sonho, e nos sonhos sabe-se o que se vai dizer e o que se vai escutar antes de ser dito e ouvido, ou nem dito nem ouvido - páira no ar, onírico. Ele ia passando pelas fotos que eu peguei para mim, um Jesus, uma Nossa Senhora; estas eu não quero, fiz-me entender, disse em alto e bom português. Daqui para frente há um abismo, uma lacuna negra. Lembro-me que ganhei uma força terrível, grande, e utilizo de força para bater no rapaz loiro de sorrisos e dentes irritantes. Arranco dentes dando socos, o rapaz cái com sangue e dentes caindo por todos os lados, um punhado de dentinhos branco-amarelados afiados, caindo, juntando-se...

***
Uma espécie de penitenciária, e não era mais na Europa. E, melhor, onírico: eu não estava presa; nem lá estava. Era algo norte-americano, sim, era. Fez-me sentir que era. Travavam uma conversa. Espancamento, do filho de *****, importante de ***** (tal lugar da Europa). Disse que era de Nova Iorque, metida em contrabando de drogas, precisa de ajuda. Tenho que falar com ele.
Então, quem falava isso foi conduzido pelo outro naquela espécie de penitenciária, para encontrar aquele ele que poderia protegê-la por ter espancando o jovem e arrancado todos os seus dentes. Oi, disse ele, oi, repetiu a voz aguda do filhinho dos meus vizinhos aqui no Brasil.

Um comentário:

Rafael disse...

é, onírico ¬¬